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António José Salgado Rodrigues

Texto indicado por: António José Salgado Rodrigues

Texto publicado no livro de autoria de Casimiro Henriques de Moraes Machado, Terras Bragançanas – um olhar sobre o passado - A Torre – Ano VI, Nº 120, 15-IV-1957.

“Nesta época de absorvente e sórdido materialismo, em que a indústria imperante supera todas as actividades, por monopolizadora acção, o prolifero comércio labora com descaroável e notória ganância, os técnicos de toda a sorte agem, geralmente, com o fim exclusivo de obter chorudas remunerações, os venturosos agraciados disfrutam e ambicionam cómodas e rendosas acumulações, a arraia miúda e os agricultores definham, votados a lastimável desprezo , e a antiga e profícua classe média, morre abandonada e empobrecida, é estulta madureza perder tempo com coisas do espírito, e tanto mais com despojos da passado, que absolutamente carecem de substancial valor.

O chocho que o compreende e continua, lá irá para onde o pague, para o inferno ou casa de orates, se num ou noutra ainda não deu entrada, por indesculpável desleixo.

Tolera-se a incúria, porquanto é velha pecha, e “quem o tem de manha até no verão se arreganha”, quanto mais no aborrecido inverno, tão propício a lucubrações!

Mesmo esgalgado, permita-se-lhe manipular mais uma magrinha notícia para a acolhedora “Torre”, que não é lucrativa empresa, de rápidos e fabulosos dividendos, mas meritória tribuna em prol do comum, da desvalida e campesina grei, tão carecida de carinhosa assistência.

A povoação em epígrafe, não é cidade nem vila, é aldeia importante, tem médico conceituado e hospitaleiro - Dr. Virgilio Pimentel de Carvalho – escola dos centenários e Casa do Povo, e teve origem na capital da Comenda velha de Santa Maria, da Ordem de Cristo, que acabou em ruínas, e renasceu a montante, na margem esquerda da mesma ribeira, mantendo-se em progressivo desenvolvimento.

A igreja, vasta e asseada, é relativamente recente, por quanto deve datar da segunda metade do século desassete, e na capela-mor, do lado do Evangelho, há uma inscrição sepulcral que diz:” Aqui jaz Pasch/al Camelo e Cas/tro n.al da Torre de Mo/ncº Rdº Abb.e que foi/nesta Igreja de Caste/lo Branco que fa/leceo da vida pré/zt.e aos 15 de Strº/ de 1681 annos”sendo as letras maiúsculas.

Se este Abade – não foi o promotor da construção do templo, deve ter sido seu grande entusiasta e benemérito, porque a honra de ser sepultado naquele local, só em casos especiais, como aqueles, era permitida. Como a seguir veremos, por documentos, ainda nesse ano não existia o altar actual.

Cumulativamente, vamos ressuscitar dos conterrâneos, que contemplam a sua obra, sempre que ali vão para recolhida prece.

Vamos transcrevê-lo textualmente, para não lhe tirar o sabor da época: “Saibam quantos este público Instrumento de Escriptura de fiança ou como em Direito melhor haja virem que sendo no anno do Nascimento de Nosso Senhor JESUS Christo de mil e sette centos noventa e dois annos aos dezoito dias do mês de Setembro do dito anno nesta Villa de Mogadouro e escriptório de mim Tabelião ahi aparecerão presentes em suas próprias pessoas António Pereira, e João Rodrigues Manso desta villa pessoas conhecidas de mim Tabellião pelos próprios do que dou fé. Elogo pelo sobredito Antonio Pereira foi dito que ele tinha arrematado a obra de Carpintaria da Capella Mor do lugar de Castello branco deste termo, pelo Juizo da Provedoria pela quantia de Cento e três mil e oito reis, para cuja dava por seu fiador e principal pagador a João Rodrigues Manso desta villa o qual sendo prezente, disse que elle de seu moto próprio fiava e abonava o dito António Pereira acima referido e se obrigava a satisfação da dita obra na conformidade dos seus apontamentos de que dou fé assim o dizerem perante mim e das testemunhas abaixo assinadas, em fe de que assim o disserão outorgarão estipolarão e aceitarão e mandarão fazer esta nota de mim Tabellião que como pessoa publica estipolante lho espolei e aceitei em nome das partes prezentes e absentes de quem toca e todas possa sendo testemunhas prezentes o Padre António Anjo e Francisco de Paulla desta reconhecidos de mim Tabelião do que dou fé e assinarão com os outorgantes e eu Belchior Luis Teixeira Tabellião que a escrevy por me ser destribuida”.

De Antonio Pereira, carpinteiro, de Mogadouro, e que arrematou esta obra, só por mero acaso, se poderão conhecer outros dados de interesse para a sua biografia. Outro tanto não sucede quanto ao sepulto Abade Pascoal, posto que creia na grande dificuldade. Era de Moncorvo. Reza o epitáfio, e de sangue nobre, julgo eu: certamente da família Carvalho Camelo e Castro.

Na realidade, o assunto não dá pessoal proveito, mas satisfaz a curiosidade.

Não haverá dedicado amador, que tente rasgar o véu que teimosamente envolve esta sacerdotal figura, que nasceu e viveu na nossa Terra?”

A Torre – Ano VI, Nº 120, 15-IV-1957

(Texto publicado no livro de autoria de Casimiro Henriques de Moraes Machado, Terras Bragançanas – um olhar sobre o passado)

 
Luis Pardal

Cantar os Reis

Pensei ir a cantar os Reis de porta em porta para abraçar e desejar um feliz 2012 a todos os albicastrenses.

Lembrei dos cantos e da animação da minha terra durante o dia de reis e ficou um gosto de saudade no ar.

Dia 06 de janeiro também é o dia de desmontar o presépio. No primeiro sábado de Dezembro é sempre com grande alegria que preparamos, na sala de casa, um cantinho especial para celebrar o natal, com o pinheiro e o presépio. Hoje ao desmontar e guardar as imagens, o coração ficou triste por alguns momentos, mas logo me dei conta do sentimento que me apertava o peito e sorri ao lembrar com esperança de que mais um Natal será celebrado em 2012 e assim o será em todos os anos. A melancolia deve nos remeter para a esperança de dias melhores. E não é este o sentido desta quadra? A esperança e a certeza de dias melhores!

A adoração ao Menino Jesus, é uma tradição das mais antigas das nossas aldeias, uma tradição gravada nas memórias e que remete a todos para a infância. Afinal é nesta fase mágica de nossas vidas que os sonhos, e os pensamentos são sem limites e cheios de possibilidades. Como seria bom se não perdêssemos este dom: sermos meninos(as) para sempre.

Em Castelo Branco era frequente, constituírem-se grupos improvisados de cantadores e cantadoras que, à noite, percorriam as ruas da aldeia, de porta em porta, a cantar aos senhores de cada casa, para desejar saúde, sorte e prosperidade, para o ano novo que chegou abençoado pelo nascimento do Menino Jesus. Actualmente, esta tradição, ainda se mantem graças a iniciativa de alguns saudosos. A troca pela visita e o cantar dos Reis ou das Janeiras normalmente era uma peça de fumeiro, castanhas, amêndoas, figos secos, além da alegria de servir um prato de milhos regados com o bom vinho nacional. As linguiças e alheiras recebidas serviam depois para fazer uma patuscada, ou um fado, como dizemos por lá. Quase toda a gente adere e as famílias ao saberem dos cantadores nem se deitavam à espera que o grupo passasse pela casa. A iniciativa sempre foi organizada pela malta nova. que é na grande maioria das vezes a responsável pela animação e continuidade das tradições. Seria bom que os mordomos das festas começassem o ano com o canto das Janeiras e dos Reis assim além de manterem a tradição já iniciavam o ano com recursos para realizar as festas e integrar as duas tradições.

QUE OS SANTOS REIS NOS TRAGAM A TODOS HARMONÍA E PAZ!

FELIZ 2012

 
Património

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António José Salgado Rodrigues

 

embude SE BEM ME LEMBRO, também no meu tempo via festejar o Carnaval e que muito me custava não poder participar. Lembro-me perfeitamente dos “casamentos  aú” e como já li dois detalhes, vai também o meu que lembro com saudade.

Quando, lá ao longe, se ouvia o entoar de de atorreamento carnavalesco que ecoava através de um bom “embude”, era prenúncio que os casamenteiros estavam próximos e renascia em nós a esperança de ver coma seria o casamento. Mais próximo, já na rua da Vale, ouve-se então: “Ó senhor Nascimento aú, a sua filha Ana já se quer casar? Depois de breve silêncio, vem a resposta, outras vozes, sim. .. E quem lhe havemos de dar para a sustentar..? Nova pausa e dizem; há de ser o Antoninho do senhor professor que é capaz de a governar..e de seguida e em coro ,é bom rapaz, é bom rapaz..

Lembro que uma das vezes e com a devida permissão, entrei e fui a casa da noiva “pedir a mão”,que com toda a gentileza fui recebido e se comeram uns doces e beberam-se uns cálices de licor.

Lembro também algumas passagens de festejos carnavalescos com vários mascarados de diversos disfarces que acompanhavam em cortejo e com burros à mistura, também eles engalanados a preceito e não podia deixar de recordar o cortejo que, além de variados caretos e outros figurantes do género, o impagável Mário Lapo que, cavalgando o seu pachorrento macho, “o mosquito”, com uns dois pares de albardas donde pendia de cada lado, servindo de estribo, uma caldeira velha e o nosso amigo Mário todo sumptuoso, tinha como roupagem apenas a cobri-lo, uma colcha de renda que deixava transparecer todo o corpo e seus contornos…, o que não agradou a alguns mas alegrou a muitos mais com fortes gargalhadas. Tal era a mansidão do “ mosquito “, que mesmo com as bombas de carnaval a estourarem-lhe debaixo das patas faziam com que ele se espantasse. Nesses cortejos seguiam, como já disse, seguiam vários mascarados que, disfarçadamente, levavam nas algibeiras e pequenos saquitos, cinza bem peneirada para atirar pela multidão que assistia à sua passagem, mas as meninas mais prendadas eram presenteadas com farinha ou pó de arroz ou até mesmo “enforretadas “

Quando as meninas vistosas se encontravam às janelas e varandas para evitar aqueles mimos, lá se atiravam uns punhados de farinha e quando algum com mais destreza tentava invadir os seus aposentos eram atingidos com uns copos de água. Muitas vezes assaltava-se a casa por portas travessas, pois uma ou outra e até a dona de casa, já combinada com os assaltantes, lhes permitiam chegar às vítimas, que então eram bem polvilhadas com farinha, pó de arroz e acariciadas com as mãos bem ferreteadas com cortiça queimada, apesar de todos os esquivos.

Outras mais afoitas seguiam no cortejo e conviviam alegremente com os rapazes e travavam luta para ver qual o que ficava mais enferretado e branqueado de farinha, era uma camaradagem sadia, naquele tempo ainda não se tinham serpentinas de maneira que os foliões se valiam dos artifícios usados naquela época.

Mais lembranças tinha para contar, algumas bem tristes, mas não as comento, essas estão bem guardadas no coração.

Já vais que longo este arrazoado, por isso aqui deixo um obrigado a quem tiver a pachorra de o ler. Deixo um agradecimento muito especial para os amigos Isaías Cordeiro e Luis Pardal que se vão encarregar de substantificar o texto “ SE BEM ME LEMBRO “.

Um afectuoso abraço!

Para os amigos, continua a ser o Antoninho.

 
Alberto José Paulo

 

 

Dicionário


Os dois garotos cinquenta e tal anos depois:

- Amigo Carlos, estás bom?

- Olha o amigo Zé!!! Eu estou e tu?

- Também? Então vieste à festa?

- É verdade, já tinha saudades da aldeia. Lembras-te há cinquenta e tal anos no canilhão?

- Se lembro, chamamos tantos nomes à velhota que ela foi fazer queixa aos nossos pais:

- Levei cá uma capilota…

- Eu só levei duas lapadas, mas doeu cmó carai…

- Sabes, a nossa língua regional está a perder-se!

- Pois está e é pena.

- Recordas-te na praia em Sesimbra de um indivíduo pediu-te o jornal, e quando to entregou nos procurou se éramos de Castelo Branco ou de Meirinhos?

- É verdade acertou mesmo na muge, a nossa maneira de falar funcionou como o bilhete de identidade.

- Ainda te lembras dos nomes que chamamos à velha? Sim, dos nomes e do significado das palavras que se usavam na altura. Então posso perguntar o significado de algumas?

- Sim pergunta que eu respondo...

E foi assim sem querer que fizemos um dicionário completo com os ditos de nossa terra:

DICIONÁRIO “ALBICASTRENSE”:

À FALSA FÉ = À traição.

ABALAR = Ir embora.

ABÉSPURA = Vespa.

ABIXEIRO = Zona húmida e sombria.

ABONDAR = Chegar ao alcance da mão.

ACACHAR = Agachar, esconder.

ACARREJA = Transporte de cereais para a eira.

ÁCERTA = Isso é que era bom.

ÁDREDE = De propósito.

AFORRADO = Em mangas de camisa.

AGUÇADOURA = Pedra de afiar instrumentos de corte.

AGUILHADA = Vara com ferrão na ponta.

AICHE = Não me digas, não pode ser.

ALCOBITEIRA = Mulher que ouve aqui e conta além, aumentando a descrição.

ALDRABA = Ferrolho da porta ou janela.

AMANHADO = Arranjado.

AMARRAR-SE = Abaixar-se.

AMOLAR = Afiar, ou aborrecer.

ANDOR = Vai-te embora.

AQUEBULAR = Encher acima da medida.

ARROCHE = Pau curto e curvo para apertar a carga das bestas.

ATAFAIS = Correias de cabedal que ligam à albarda.

ATIÇAR = Aumentar a força do lume.

AUGAR = Sentir crescer água na boca, à vista de uma guloseima.

BÁDIL = Pá para apanhar a cinza da lareira

BARAÇA = Fio de algodão entrelaçado para jogar o pião.

BARDINO = Individuo vadio

BATOQUE = Pau pequeno afiado nas pontas, jogo do batoque.

BELOURO = Alto na cabeça provocado por pancada.

BILHÓ = Castanha assada descascada.

BIQUEIRO = Pontapé ou pessoa que gosta de boa comida.

BOLARDA = Intumescência provocada por picada de mosquito

BOTA = Vasilha de cabedal para vinho

BUEIRA = Abertura no telhado nas casas sem chaminé para saída do fumo.

CABELO GRIFO = Encaracolado.

CAÇOAR = Escarnecer.

CAÇOILA = Tigela grande.

CAGUFA = Medo.

CALACEIRO = Preguiçoso.

CALAGOUÇA = Roçadoura, pedoa.

CALHOADA = Atirar pedra, pedrada.

CANELO = Ferradura das vacas.

CANHONA = Ovelha velha.

CAPÃO = Feixe de vides.

CAPILÔTA = Sova.

CARAMBELO = Gelo.

CARRAMELO = Amontoado de coisas.

CARRANCHA = Risca do cabelo.

CHABASCO = Pateta.

CHICHARO = Feijão-frade.

CHINCALHÃO = Jogo de cartas.

CHOSCO = Tolo, pateta.

CHUPÃO = Chaminé de ferro ou zinco.

CIBO = Bocado pequeno.

CONQUEIROS = Azedas.

CRUNHA = Caroço.

DAR FÉ = Dar conta de, lembrar-se.

DERRAMADA = Mal afiada.

EMBARAÇADA = Mulher grávida.

EMBARRAR = Dependurar.

ENCARRAPITADO = Empoleirado em lugar alto.

ENGARANHADO = Que treme de frio.

ENGROLADO = Mal cozido.

ESCALAFOBÉTICO = Estranho, esquisito.

ESCALEIRAS = Escada.

ESCANCHAR = Abrir muito as pernas.

ESCANO = Banco comprido e largo.

ESCARABANADA = Cair granizo.

ESCOVALHO = Vassoura de giestas.

ESMAMONAR = Cortar mamões ás videiras.

ESPANHOIS = Faúlhas, chispas.

ESPARVAR = Separar o grão das praganas.

ESTOUVADO = Maluco, doido.

FACHUQUEIRO = Archote de palha usado na matança do porco para o chamuscar.

FARDELA = Saco da merenda.

FORGALHA = Migalha de pão.

GARABATOS = Lenha miúda seca.

GLÓRIA = Castanha mal assada.

GRABANCEIRA = Planta que dá o grão-de-bico.

GRÁDURA = Grão ou feijão secos.

GUAPO = Bonito.

GUICHO = Indivíduo astuto, esperto.

INGRIDEIRA = Corda.

INZONEIRA = Enredador, que intriga.

JARIGOTO = Bem vestido.

LAFRAU = Mariola, patife.

LAMBADA = Bofetada.

LAMBAREIRO = Guloso.

LÁREAS = Corrente que pende do teto da cozinha.

LISTO = Individuo esperto.

LOSTRA = Lambada, bofetada.

LÚRIA = Corda grossa.

MÁÇA Instrumento de pau para maçar o linho.

MACACA = Jogo de crianças e adolescentes.

MAMÃO = Rebento que rouba à planta o suco alimentício.

MANEAR-SE = Mexer-se.

MANHUÇO = Conjunto de coisas que podem abarcar-se com a mão sem as esconder, pequeno feixe.

MARAVALHOS = Lenha miúda.

MAROSCA = Trapaça.

MARRÃ = Carne fresca do porco.

MARRAFA = Penteado.

MASTRONÇA = Mulher muito feia.

MÊDA = Monte cónico de feixes de trigo.

MEDRADO = Crescido.

MELAS = Mossas no gume de instrumento cortante.

MEOTES = Meias de lã ou de algodão.

MERUJAR = Chuviscar.

MERUJAS = Planta que nasce na ribeira e se usa na salada.

MOFA = Partícula de cinza que sai do lume a arder.

MOINANTE = Individuo pândego, vadio e malandro.

MOLETE = Pequeno pão de trigo.

MONCOSO = Ranhoso.

MORDO DE PÃO = Bocado de pão.

MURILHO = Pedra ou peça de ferro em que se apoia a lenha que arde na lareira.

NABINHA = Semente do nabo.

NÃO-MAS-SIM = Usa-se como afirmação: não foste à feira = Não mas, sim, fui.

NEGREIRA = Mancha na pele provocada por contusão.

PAMONHA = Pessoa palerma.

PANDILHA = Pessoa maldosa, ordinária.

PANTEMINEIRO = Galhofeiro, intrujão.

PARELHA = Coice.

PASPALHO = Individuo inútil.

PATASSOLA = Joaninha.

PEIDO NA TESTA = Remoinho no cabelo.

PERISCA = Ponta de cigarro.

PERNADA = Ramo de árvore.

PIMPONA = Rapariga bonita.

PIOSCA = Espécie de pião feito dum carro de linhas que se põe a rodar com os dedos.

PORRADÃO = Grande quantidade.

PORRETA = Talo verde de cebola ou alho que se usa na salada.

PROA = Vaidade.

PROCURAR = Perguntar.

PRÓ-PÉ-DE = Para junto de.

PUCARO = Pequeno recipiente de barro ou alumínio, para beber água.

QUARTA = A quarta parte de um alqueire + ou – 3,75 litros.

QUESTOSO = Saboroso.

RABEIRO = Rédea pequena.

RACHOS = Troncos de árvores partidos para o lume.

RALAR = Afligir.

RASCANHAR = Arranhar, raspar.

RASURA = Calor que irradia da fogueira.

REBULHAR = Remexer.

REBUNHÃO = Arranhão, ferimento.

REBUSCO = Apanha de frutos em propriedade onde o trabalho foi dado por terminado pelos seus donos.

REMEIA = Unidade de capacidade equivalente a 6.25litros.

RESMUNGÃO = Refilão.

RESTOLHO = Parte inferior do trigo ou do centeio que ficou enraizada depois da ceifa.

RESVALAR = Escorregar.

RILHEIRO = Conjunto de molhos de trigo no campo da seara à espera da acarreja.

SALTÃO = Gafanhoto.

SAPATEIRA = Diz-se da azeitona velha e mole.

SARRÃO = Saco de merenda feito de pele de ovelha usado pelos pastores.

SARTA = Conta do rosário.

SEITOURA = Foice de segar.

SERTÃ = Frigideira.

SOBIOTE = Apito, assobio.

SOPAS-CHIZ = Sopas com sangue cosido na matança do porco.

SÓTA = Dama de espadas no jogo do chincalhão.

SÓTO = Loja de comércio.

SURRENTO = Sujo.

TORNAJEIRA = Jeira paga com outra jeira, troca de um dia de trabalho por outro.

TRAMBULHÃO = Tombo ou queda.

TRAMPA = Excremento.

TRILHO = Alfaia agrícola, de madeira para trilhar o cereal.

TRIPÊÇA = Banco de três pés.

TRITEIROS = Homens do circo.

URDIR = Obter os fios de linho para colocar no tear.

VADAGAIO = desmaio.

VIANDA = Comida para porcos, cosida na caldeira.

ZANGÃO = Bruxo, lobisomem.

ZINGARELHO = Diz-se de criança irrequieta.

ZORRO = Criança que os pais enjeitam ou mandam expor à porta de outrem, filho bastardo.

QUEM LEMBRAR DE OUTRAS QUE AS DEIXE ESCRITAS NOS COMENTÁRIOS!

Forte abraço albicastrense

Alberto Paulo.

 
Ricardo Pereira

 

Uma conversa no msn foi o ponto de partida para este artigo e para lhes fazermos um convite: Ajudem a reunir ditados e provérbios dos albicastrenses de hoje e de outras épocas.

A idéia á antiga e deixamo-la parada. Mas pronto, ainda vai a tempo. Semana passada calhou de nos encontrarmos eu e o Luis na net e ao relembrarmos desta coletânea de provérbios e ditados populares resolvemos voltar a pô-la em pratica. Não sei se lembram mas já tem um artigo no blog sobre este tema.

Queremos convidá-los tambem a participar desta idéia!

É simples, cada um que lembrar de um ditado, escreve-o nos comentários. Serão reunidos de vez em quando em um artigo que volta á pagina inicial mensalmente para relembrar e recolher quantos relembrarmos. Pedimos que assinem sempre com o nome para sabermos quem lembrou do ditado.

E já começaram a chegar os proverbios, os autores que participaram até agora: Aida Ferreira, Alberto Paulo, Arlindo Parreira, Maria Alice, Sara Ingueira,  Zulmira Geraldes.

Mas a tua participação é muito interessante e permitirá relembrar frases que nossos avós nos deixaram e que sem dúvida ficarão no esquecimento se não as juntarmos.

Um forte abraço albicastrense

Ricardo Pereira  

DITADOS ALBICASTENSES:

1. A boda e batizado não vai sem ser convidado;

2. A casa que tem bom vinho não precisa ramo;

3. A cavalo dado não se olha o dente;

4. A culpa morreu solteira;

5. A fruta proibida é a mais apetecida;

6. A galinha da vizinha é sempre melhor que a minha;

7. A justiça tarda, mas não falha;

8. A liberdade do homem começa quando fica viúvo;

9. A mentira corre, mas a verdade a apanha.;

10. A necessidade aguça o engenho;

11. A ocasião faz o ladrão;

12. A ociosidade é mãe de todos os vícios;

13. A união faz a força;

14. A vaidade é o espelho dos tolos;

15. A verdade é como o azeite, vem sempre ao de cima;

16. A vozes loucas, orelhas moucas;

17. Abril águas mil;

18. Água mole em pedra dura, tanto bate até que fura;

19. Albarda-se o burro à vontade do dono;

20. Amigos, amigos, negócios à parte;

21. Amor com amor se paga;

22. Antes de casar, arranja casa para morar, terras para lavrar, e vinhas para podar;

23. Antes quebrar que torcer;

24. Antes tarde que nunca;

25. Ao menino e ao borracho põe Deus a mão por baixo;

26. Aquele e de bronze ganha dez e gasta onze;

27. Ate ao lavar os cestos é vindima;

28. Barriga cheia companhia desfeita;

29. Boca fechada não entra moscas;

30. Burro velho não tem andadura e se a toma pouco dura;

31. Burro velho, não aprende línguas;

32. Cada cabeça sua sentença;

33. Cada macaco no seu galho;

34. Cada terra com seu uso, cada roca com seu fuso;

35. Calças brancas em Janeiro, sinal de pouco dinheiro;

36. Cão que ladra não morde;

37. Casa em que não há pão, todos ralham e ninguém tem razão;

38. Casa que não e ralhada não e governada.;

39. Coices de garanhão pra égua carinhos são;

40. Com papas e bolos se enganam os tolos;

41. Com vinagre não se apanham moscas;

42. Comer o pão que o diabo amassou;

43. Comes te gato por lebre;

44. Contra fatos não há argumentos;

45. De pequenino se torce o pepino;

46. Deitar cedo e cedo erguer dá saúde e faz crescer;

47. Depois do baptizado feito não sobram padrinhos;

48. Deus da as nozes a quem não tem dentes;

49. Deus escreve direito por linhas torta;

50. Devagar se vai ao longe;

51. Diz com que andas eu te direi quem tu és;

52. Em tempo de guerra não se limpam armas;

53. Em casa de ferreiro espeto de pau;

54. Em dia de São Lourenço,vai à vinha e enche o lenço;

55. Em dia de São Martinho vai à adega e prova o vinho;

56. Em dia de São Tiago, pinta o bago;

57. Em terra de cego que tem um olho é rei;

58. Entre mortos e feridos algum há de escapar;

59. Fiat na virgem e não corras;

60. Galinha do campo não quer capoeira;

61. Gato escaldado de água fria tem medo;

62. Grão a grão enche a galinha o papo;

63. Guarda que comer e não guardes que fazer;

64. Homem prevenido vale por dois;

65. Juntam-se as comadres , descobrem-se as verdades;

66. Ladrão que rouba ladrão tem cem anos de perdão;

67. Leitão de um mês ,cabrito de três;

68. Mais depressa se apanha um mentiroso, que um cocho;

69. Mais vale um pássaro na mão, que dois a voar;

70. Matar dois coelhos de uma cajadada;

71. Muita parra pouca uva;

72. Mulher honrada não tem ouvidos;

73. Não metas o carro a frente dos boi;

74. Não deixes para amanhã, o que podes fazer hoje;

75. Não há amor como o primeiro;

76. No aperto e no perigo é que se conhece o amigo;

77. Ó ai ó i escorreguei mas não caí;

78. Ó i ó ai quem escorrega também cai;

79. O mal dos outros é o consolo dos parvos;

80. O que é barato sai caro;

81. O sol quando nasce é para todos;

82. Onde canta o galo não canta a galinha ... (querias);

83. Os amigos são para as ocasiões;

84. Para a frente é que é Lisboa;

85. Para bom entendedor meia palavra basta;

86. Poda em Março, vindima no regaço;

87. Quem anda de boca aberta, ou entra mosca ou sai asneira;

88. Quem cabritos vende e cabras não tem, de algum lado lhe vem;

89. Quem canta na cama e assobia à mesa,ou não tem juízo ou pouco lhe pesa;

90. Quem canta seu mal espanta;

91. Quem dá aos pobres empresta a Deus;

92. Quem dá o que tem a pedir vem;

93. Quem diz a verdade não merece castigo;

94. Quem diz a verdade... vai pro céu;

95. Quem espera desespera;

96. Quem espera sempre alcança;

97. Quem foi ao mar perdeu lugar;

98. Quem foi ao vento perdeu o assento;

99. Quem muito dorme, pouco aprende;

100. Quem não tem dinheiro não tem vícios;

101. Quem não trabuca não manduca;

102. Quem parte e reparte e não fica com a melhor parte, ou é tolo ou não tem arte;

103. Quem rouba tostão é ladrão e quem rouba milhão é barão;

104. Quem sai aos seus, não degenera;

105. Quem semeia ventos, colhe tempestades;

106. Quem te avisa teu amigo é;

107. Quem tem vagar faz colheres;

108. Quem torto nasce tarde ou nunca se endireita;

109. Quem tudo quer tudo perde;

110. Quem vai a feira perde a cadeira;

111. Quem vai à guerra, dá e leva;

112. Quem vai para o mar avia-se em terra;

113. Quem viver verá as voltas que o mundo dá;

114. Saber esperar é uma virtude;

115. Se queres a vinha remoçada, poda-a enfolhada;

116. Se sabes o que eu sei cala-te que eu me calarei;

117. Tantas vezes vai o cantaro à fonte, que um dia lá fica a asa;

118. Tão ladrão é o que vai à horta, como o que fica à porta;

119. Ter mais olhos que barriga;

120. Trabalhar para aquecer, é melhor morrer ao frio;

121. Trigo com morrão, não faz bom pão;

122. Trinta dias tem Novembro, Abril junho e Setembro, de 28 só há um, e os mais são de 31;

123. Tristezas não pagam dívidas;

124. Um burro carregado de livros não é doutor;

125. Vozes de burro não chegam ao céu;

vinha em castelo branco mogadouro

...

 
Luis Pardal

 

Lembro com muita saudade desta época, e dos trabalhos de podar,  lavrar e, arredar as vinhas. Cresci á volta das parreiras. Meu pai dizia que fui encomendado debaixo de uma na nossa vinha da rodela. Não duvido disso.

Alem dele, meu avó Antonio plantou vinhas nas figueirinhas, vale de viado, prado de carriçais, e no boboedo. Em todas tinha uvas de boas e variadas castas. Na nossa casa sempre tivemos vinho muito bom.

Nossa região e distrito, está sujeita  a geadas fortes todos os anos que põem em risco as rebentações temporãs. Assim meu avó e pai e a maioria dos conterraneos só podavam as vinhas pelos fins de fevereiro ou começo Março.

Depois da poda, era hora da lavra. Meu pai sempre fez estes trabalhos  com uma junta de machos, não gostava da lentidão dos bois ou vacas. Era enérgico e gostava de fazer as coisas de forma rápida e eficaz. Como sabem na lavra das vinhas tinham que ser postos em um jugo mais estreito para poder entrar nos valados e chegar com a charrua o mais perto possível das cepas.

Os valados eram estreitos e lavrados por inteiro de ponta a ponta. Por melhor que fosse o lavrador sempre sobrava trabalho para fazer á mão com os ganchos ou sachos. A charrua e o arado não iam muito perto das parreiras pois tinha risco de as arrancar ou danificar os rebentos. Nisto sempre ficava uma boa porção de terra entre as parreiras que obrigava a cavar para tirar a erva. Este trabalho era feito nos ganchos para arredar a terra, tirar ervas daninhas, e deixar as cepas arejadas e livres de plantas que pudessem disputar a água e mantimentos.

Era lida para alguns dias. Normalmente as férias da páscoa caiam sempre nesta época e eu voltava todos os anos para o seminário com as mãos cheias de calos que me faziam lembrar durante um bom tempo dos dias na aldeia a arredar as parreiras. Minha mãe dizia que era para me agarrar com mais ganas aos livros a estudar. Um santo remédio…

Apesar do trabalho duro, sempre lembrava e, lembro ainda, com muitas saudades, das merendas que comiamos juntos, sentados á sombra de alguma oliveira. Minha mãe dizia que a hora de comer era sagrada. Uma toalha estendida no chão e todos sentados à volta dela.

No farnel da merenda quase sempre havia um pouco do fular que sobrara da páscoa, pão, azeitonas, presunto, queijo, alguma chouriça e alem disso nunca podia faltar uma cantara de barro com água fresca colhida de alguma fontaela localizada perto da vinha. Para os adultos sempre tinha a “bota” do vinho, que refrescava a goela e enchia com novo alento e força os ânimos para continuar os trabalhos.

A poda tem seus segredos e arte. Poucos tinham na mão e nos olhos o dom de saber ver com propriedade por onde começar e como fazer.

folhas das parreiras Lembro com saudades destes gestos feitos vezes sem fim,  do inicio ao fim do dia pelo meu pai e avo. Estes podadores ficavam parados a olhar a parreira em silêncio no mesmo jeito de quem estuda um mapa. Olhos espertos e atentos olhavam primeiro para a vide e a estudavam para entender como foi a rebentação e desenvolvimento do ano anterior. A grossura e a saúde das vara diziam quais seriam ou não mantidas e em quais valia a pena apostar para uma boa frutificação.

Depois desta análise experiente era a hora do corte das vides. A tesoura de poda era guardada como um tesouro de um ano para o outro e por mais que eu tentasse não me deixavam chegar perto dela para brincar por nada deste mundo. Tinha que estar bem afiada para cortar bem, com um "golpe" só, sem deixar rebarbas. Por isso a mantinham fora do meu alcance.

parreias a chorar Sempre me impressionou muito o choro das parreiras. Meu pai dizia que elas choravam por lhes cortarem os braços mas que era um choro de alegria pois não teriam uvas se não as podássemos. Confesso que algumas vezes eu cheguei a beber da seiva que corria solta das vides cortadas, para ver que gosto tinha. Um gosto adocicado com sabor de terra e vide que em nada lembrava o vinho. Fiquei decepcionado. Na verdade tinha gosto de lágrimas, lagrimas de parreira.

folha_nova_02 Mas a poda continuava e ela é na verdade o tratamento da vara que vai dar a próxima rebentação. Lembro que tanto meu pai como meu avó deixavam pelo menos dois "ôlhos"  ou mais dependendo do estado da videira, e que por vezes tabem se deixavam alem da vara o cepo, ou serroteavam parte da cepa para fazer com que ela rejuvenescesse.

As demais vides eram cortadas rentes para fazer a limpeza da base. No fim do dia recolhiam-nas em molhos e eram amarradas com vencilhos de centeio e amontoados em um canto da vinha para secarem e depois serem levadas para casa e servirem de lenha para o forno ou aquecer a lareira. Na aldeia nada se perdia tudo tinha um uso ou serventia.

Mas o que mais gostava de ver e ouvir eram as sentenças que tanto meu pai quanto meu avo gostavam de dar do serviço da poda alheia. Sabem do que falo: Ao andar pelos caminhos que passam perto das vinhas pode-se observar o trabalho feito. Quem passava sempre ficava a reparar se a poda estava ou não bem feita. Quem sabe, nota o bom serviço e antevê o resultado para bem ou para mal. E como eles diziam: “Ele há lá podadores e os outros que se dizem, mas na verdade só cortam uma vides, e o pior de tudo é que acreditam que mesmo assim podem esperar que o ano seja propício.”

Tempos bons que foram embora. Nos anos 60 a vinha constituía depois da cultura do centeio e trigo a maior das extensões cultivadas. Nesta década ocorreu o grande surto emigratório que despovoou nossas aldeias.

Assim as vinhas de valados estreitos ficaram cada vez mais difíceis de manter pela falta de mão de obra que as cultivasse. A lavra com as vacas, machos ou mulas feitas de forma artesanal e muitas voltas que a terra levava eram feitas no arado charrua, nos ganchos e sacho por muitos jornaleiros que com isso ganhavam a vida, o pão e o vinho. Um dia inteiro para ganhar alguns escudos. Para os mais novos, o equivalente a aproximadamente dez cêntimos.

Assim chegamos aos anos 80 e a falta de mão de obra ficou cada vez mais notada. Começa então um arranque parcial: valado sim, valada não para que se pudessem lavrar as vinhas com os tractores. A partir de 1986, chegaram os subsídios da CEE para arranque da vinha. De forma desenfreada estes fundos e os donos afoitos ao dinheiro enganador, agiram sem perdão e sem remorsos, piores que a mais destruidora das molestias e liquidaram a tradição de séculos, e as vinhas uma após outra, foram sendo quase todas arrancadas e extintas.

As cepas que antes se enchiam de cachos maduros de malvasia, verdelho, ou touriga agora serviam de lenha nas lareiras. Quero crer que é por isso que as pareiras choravam e choram por tanto desleixo e insensibilidade.

A paisagem mudou quando foram retiradas as enormes manchas de verde, o vazio dos campos deixou a paisagem mais árida. O pior é que não voltaremos a ver o verde das parreiras, nem o vinho excelente que sabemos que estas terras davam.

 
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